Eu atrasei. Como sempre. E você se antecipou.
Mas dessa vez não foi um caso de responsabilidade, e sim de incompreensão. Por que agora? Por que tão cedo? Afinal, as pessoas não gastam fortunas , tempo e profissionais para atrasarem a morte?
Ao menos me avisasse, e eu diria coisas que ficaram por dizer. Mostraria objetos, lugares que você não admirou. Trecho de livros que ficaram por ler. Roupas por usar. Talvez isso fizesse alguma diferença.
Sua mãe ainda chora desolada em qualquer canto da casa. E seu pai, agüenta firme, mas o olhar perdido e vazio nota-se de longe. Seus amigos te lembram de vez em quando em uma conversa ou outra. E eu...
...
Eu sofro a tua falta, como se me faltasse a própria vida. Eu não compreendi, e mesmo que compreendesse tais motivos a falta permaneceria. Desconheço o que é este mundo sem você para me aconselhar, e ser presença mesmo que distante.
As flores poderiam vir antes, para que sentisses o perfume, admirasse as cores. Mas eu atrasei. Como sempre. E de vida naquele lugar sombrio, apenas as flores, que uma hora ou outra também murchariam.
E só ficou em ti os pensamentos daquele momento.
E só ficou aqui a saudade.
E só ficou em ti os pensamentos daquele momento.
E só ficou aqui a saudade.
E só ficou em mim desejo de entregar-lhe as flores em vida.
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